terça-feira, 19 de abril de 2016

Crônicas do cotidiano: Carta a uma jovem professora da minha província





José Luiz Gomes da Silva


Dizem os mais experientes que quando a gente cruza o cabo da boa esperança, ali pelos 50 anos, a ideia de finitude começa a aparecer em nossos horizontes. Acontece comigo - e creio que com outros tantos - a mania de ficar remexendo em coisas velhas - aquelas que a minha esposa permite ainda que possamos manter - como a coleção do caderno Ideia, do antigo Jornal do Brasil, o Mais, da Folha de São Paulo, duas máquinas de escrever Olivetti antigas, uma coleção de vinil - todos os discos do Chico e da Banda de Pau e Corda - o Le Monde Diplomatique, um conjunto de textos e recortes ainda preservados. Fiquei sem muito o que fazer com esses últimos, até que resolvemos disponibilizá-los para a estudantada mais jovem, através de um blog de pesquisa escolar, que passou a fazer enorme sucesso, com quase mil acessos diários. 

Uma das postagens mais acessadas é uma crônica que escrevemos sobre a cidade de Paulista, por ocasião da comemoração dos seus 78 anos de emancipação política. Nunca entendi muito bem porque do sucesso dessa crônica entre os posts acessados. Inquieto, passamos a invocar algumas possibilidades: poderia ser os antigos companheiros de peladas da Mata do Frio, ali contemplados. À época, a Mata do Frio tinha qualquer coisa de especial, com um excelente campo de várzea, muita manga espada e um bom rio para os mergulhos depois das peladas; quem sabe a rapaziada da Praça Monte Castelo; os ex-alunos e alunas do Círculo dos Operários Cristãos; talvez os ex-jogadores do Uberaba Futebol Clube, um time de craques que, em competições oficiais, nunca perdeu uma peleja nas quatros linhas. Por falar no Uberaba, que saudades do Nego Tom, um centro-avante de habilidades excepcionais. Dava gosto vê-lo jogar naquelas manhãs de domingo, de vitórias memoráveis do nosso clube do coração. Por onde anda o Nego Tom? Todas as possibilidades seriam possíveis, mas deixei de especular a esse respeito pela simples razão de não chegar a conclusão alguma sobre o assunto. 

Andei relendo a crônica, escrita há alguns anos atrás. Hoje faria muitas intervenções no sentido de melhorá-la. Começaria por excluir os acréscimos introdutório, como resultado de uma visita recente àquela cidade, por ocasião do recadastramento biométrico. Mas manteria as críticas às recentes intervenções urbanas que o município sofreu. Eis que recebo, através dos canais específico do blog, uma longa mensagem de uma professora da rede de ensino municipal daquela cidade, nos informando sobre o "mistério": a crônica está sendo utilizada em sala de aula em sua escola e em outras escolas do município, com enorme sucesso entre a gurizada. Em meio a essa tempestade perfeita que tomou conta do país - com uma crise política, ética e econômica generalizada -, professora, para nós que nos exercitamos no ato de escrever, não poderia haver notícia melhor.

A crônica relata uma Paulista "daqueles tempos", de campos de várzea; das reservas de mata atlântica e eucaliptos; de riachos de águas transparentes - cheios de peixes e camarões Pitu -; dos carrinhos de rolimãs, que desciam desembestados pelas ladeiras, fazendo a festa da gurizada; das melhores brincadeiras de crianças; da "Levada da Tinta", cujas águas mudavam de cor. Nem Saint Exupéry, com  seu gênio criativo, poderia imaginar coisa do gênero. Uma Paulista que não existe mais, espremida que foi pela urbanização de seu espaço físico, em razão da especulação imobiliária. A Levada da Tinta até secou. 

Estamos preparando uma grata surpresa, professora Maria Lúcia. Logo ela deverá está disponível para os seus alunos e alunas, assim como a todos os paulistenses. Agradeço imensamente o convite para este debate com os alunos e professores. Um forte abraço do amigo. 

  

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