segunda-feira, 18 de abril de 2016

Michel Zaidan Filho: Dia do cão




Tive o imenso desprazer de ouvir ontem, na Rádio Jornal, onde aguardava para dar uma entrevista, duas figuras sinistras, dessas que são convidadas a fazer o trabalho sujo para os outros, enquanto se enxergam como grandes protagonistas da História: o neto-genro do coronel Chico Heráclito e genro do senador biônico Marcos Vinícius Vilaça, e o menudo e político de primeira geração, Bruno Araújo, se regozijando pelo feito de ter ajudado a empurrar para frente o cortejo fúnebre da democracia brasileira. É quando se produz a inversão típica de valores, onde a democracia parece um lamentável mal -entendido(Sérgio Buarque de Holanda): como é que acusados, réus, beneficiados por propinas de grandes empresas se tornam – num passe de mágica – em acusadores! Estaríamos assistindo a um filme surrealista, onde das profundezas do inferno, aparecessem figuras espectrais se arvorando em “anjos vingadores” com espadas apontadas para os infiéis? Esse é o quadro dantesco da política brasileira. 

A se consolidar essa imagem danada do Congresso Nacional, onde o diabo em forma de anjo ou cordeiro, aparece com a promessa de redenção, poderíamos votar uma lei geral (e não uma PEC pedindo eleições gerais) institucionalizando a bandalheira no país! Quem em sã consciência pode levar a sério esse rito diabólico de inversão? – A mídia desregulamentada e monopolizada por algumas famílias? – A plutocracia da FIESP interessada em pagar menos impostos e reduzir direitos trabalhistas? As igrejas neopentecostais, com seus bispos e pastores travestidos de políticos, com a Bíblia numa das mãos, e a bandeira do Brasil, na outra? – O judiciário acovardado? Ou um aparelho policial fora de controle?

Poderíamos usar a imagem de George Orwell: a mentira é a verdade, o roubo é a caridade, a injustiça é a justiça e assim por diante. A comunidade internacional ri do espetáculo mambembe de deputados fantasiados de papagaios, fazendo declamações de amor ao Brasil, à sua igreja, ao seu povo, enquanto passeiam impunes pelas listas de propinas das grandes empresas. Deputados “democratas” que enaltecem a Justiça, quando ela lhes convém, mas que ao mesmo tempo obstruem decisões dos tribunais superiores, quando não gostam ou não concordam com elas. O que fazer com essas criaturas grotescas que apareceram na telinha. Ensaiando o papel de “salvadores da Pátria”? – Acham que continuaram iludindo a boa-fé da nossa gente brasileira, apostando no apoio da mídia e no ativismo do senhor Gilmar Mendes? – Ou nos almoços de filé mignon patrocinados pela FIESP?


Em algum momento, vai ficar claro o descompasso entre o teatrinho dessa camarilha e os interesses do país, quando o impostor se sentar –impudicamente – na cadeira presidencial (sonhando em ser candidato em 2018). Quando começar o processo de rapina das riquezas nacionais, a destruição das políticas compensatórias, o ataque sistemático aos direitos dos trabalhadores e pensionistas, quando se abrir a carnificina interna entre os aproveitadores do botim, vamos ver o que acontecerá com a alegria e a felicidade desses vendilhões da Pátria, dos fariseus de todas as Igrejas, dos sepulcros caiados da Igreja Sara Nossa Terra. Aí, o diabo em pessoa, e de cara lisa, vai aparecer para cobrar, com juros e correção monetária, a obra realizada pelos seus empregados.

Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

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