sexta-feira, 15 de abril de 2016

Editorial: Dentro das regras da legalidade, não há mais nada a negociar.






A julgar pelo jogo bruto que está sendo jogado em Brasília, pelos operadores que trabalham pela aprovação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, não descarto a possibilidade concreta de o Planalto encontrar alguns problemas no sentido de conquistar os 172 votos necessários para barrá-lo na votação programada para o próximo domingo. O rolo-compressor envolve desde a negociação de cargos e vai ao limite das ameças veladas, conforme já foi denunciado. O que está em jogo não é apenas a "cabeça" da presidente Dilma Rousseff, mas o pescoço de inúmeros parlamentares envolvidos em falcatruas com o dinheiro público. Feita as contas, aprovado o impeachment da presidente, já está acertada as outras etapas do jogo, numa operação que envolveria acordos no sentido de poupar determinados parlamentares de constrangimentos legais. Isso sem falar na brutalidade ( ou pacote de maldades) das medidas de ajustes que estão sendo pensadas pelo conjunto de forças que desejam o PT fora do poder. Afora o mais que provável "endurecimento" do exercício do poder político.

É um jogo de bandidos. Um jogo para se jogado entre as facções do crime organizado que, na absoluta ausência do aparelho de Estado, controlam as unidades prisionais. Um governo que tem Michel Temer como vice não é, necessariamente, nenhum "mocinho", mas há uma nítida impressão de que as forças governistas perderam a capacidade de "barganha". Se o pedido de impeachment é aprovado pela Câmara dos Deputados, dificilmente o Planalto conseguirá sua reversão na apreciação pelo Senado Federal. Uma derrota acachapante do Planalto na Câmara produziria um efeito devastador no Senado Federal. Seria pouco provável estancar essa sangria, com os "coxinhas" comemorando a vitória como se fosse a conquista de uma copa do mundo.   

Em última análise, o que se pode compreender é que Dilma Rousseff, pelo que se conhece de sua integridade, não autorizaria negociações que extrapolassem os limites estritos da legalidade. Certo mesmo estava Barroso, ministro do STF, ao demonstrar suas preocupações sobre os rumos do país com essa gente que aí está. De forma consequente, o ex-ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, manifestou sua preocupação sobre o que poderá ocorrer domingo, em Brasília, onde foi erguido uma espécie de muro, onde serão separados os partidários do impeachment e aqueles que são contra. A despeito de todo o aparato policial mobilizado, há, concretamente, a possibilidade de confronto. 

Jamais imaginaria que pudéssemos chegar a este estágio. O ovo da serpente estava sendo "chocado" e, sequer, nos apercebemos da gravidade. Foi ganhando musculatura nas lares, nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas repartições públicas, nas escolhas equivocadas do PT. Alás, a burocracia petista, embebida pelo exercício do poder, perdeu o contato com os movimentos sociais, permitiu que seus inimigos históricos comessem o governo por dentro. Governou com os inimigos, dormiu com os inimigos. Cevou urubus que hoje vicejam na carniça. Não é incomum encontrarmos dentro das repartições públicas, exercendo cargos de confiança, coxinhas pregando abertamente o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Muitas reformas deixaram de ser feitas, outras mantidas em banho maria, e hoje paga-se um preço muito alto por isso. Avançamos nas políticas sociais de corte inclusivo, mas marcamos passo na educação, na reforma política, na regulação da atuação dos meios de comunicação de massa. Existem uns manipuladores a rasgarem a Constituição, usurparem mandatos legítimos, acusarem sem prova, condenarem sem julgamento, e uma massa amorfa a seguir seus rumos obscurantistas, sem se dar conta das consequências deste ato para a saúde já frágil de nossa democracia.  

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