quinta-feira, 29 de maio de 2014

Abreu e Lima: Um motim dos consumidores excluídos?




Foto: Che ne pensi? Condividi

JOSÉ LUIZ GOMES ESCREVE 

                        



Ainda muitas inquietações pelas redes sociais sobre os episódios de saques e arrombamentos de lojas que ocorreram na cidade de Abreu e Lima, durante a greve da Polícia Militar. Um fato que alcançou repercussão internacional. Escrevemos muito sobre o assunto, pois temos algumas ligações afetivas com o município. Até recentemente, a cidade era apenas um distrito de Paulista, conhecida como Maricota, penso que em razão das muitas casas de sem-vergonhices existentes no local. Que Deus nos perdoe, Liêdo Maranhão – um estudioso profundo da cultura popular, falecido recentemente – caso tenhamos usado um termo inapropriado. Feliz ou infelizmente, a cidade já se livrou do pecado da carne. Hoje é um dos maiores redutos evangélicos do Brasil. Para ser mais preciso, segundo dizem, a maior densidade de população evangélica da América Latina.
                                      Pode ter se livrado da ira divina, mas permanece submetida ao julgo dos políticos sem espírito público. Naquele dia fatídico, logo cedinho, a população da cidade foi acordada com uma lavagem de roupas sujas entre suas lideranças políticas. Uma birra entre o ex-prefeito e o atual, onde não faltaram acusações de malversação de recursos públicos. No dia anterior, mais um atropelamento com morte num de seus distritos, a Matinha, fato que ocorre com certa frequência. Trata-se de um trecho bastante perigoso. O Município é cortado ao meio por uma rodovia federal. Há engarrafamentos quilométricos no local. Certamente algumas medidas precisam ser tomadas pela esfera pública para preservar a integridade das pessoas que por ali transitam.
                                      Antes que condenem a população - como fez hoje uma conhecida rede de televisão – aquela do plim,plim -  tratando-os como bandidos, quase que de forma generalizada - quero afirmar que a população do município é constituída de gente ordeira e trabalhadora. Um dos aspectos mais importantes dos saques ali ocorridos é que podemos tirar algumas lições fundamentais para começarmos a entender sua complexidade, quiçá, antecipando-se a outros episódios em gestação. Em termos de arrombamentos e saques, já foi possível observar, por exemplo, uma possível generalização para os municípios vizinhos, e há relatos até mesmo em cidades do interior do Estado.
                                      Mudanças profundas na "agenda pública" já foi reivindicada pela população desde as manifestações de Junho de 2013. O poder público, em todos os níveis, solenemente, ignorou-as. Alguém já teve a curiosidade de checar a quantas andam os indicadores sociais de educação, saúde, habitação, emprego, renda, de nossa antiga Maricota? Os governantes estão brincando com fogo. Há, na cidade, alguns indicadores que podem contribuir para essas situações de convulsão social. Há um número expressivo de pessoas morando em condições sub-humanas; é grande o comércio de entorpecentes na cidade; Assim como Goiana, ali também é registrada uma presença grande da exploração de sexual de crianças e adolescentes; apesar do forte comércio varejista e da presença de empresas de porte, ainda é alto o índice de desempregados na cidade, portanto, sem acesso até mesmo aos bens de consumo essenciais. O município comporta duas unidades prisionais, onde ocorrem rebeliões com alguma frequência.
                                      Em 2011 ocorreram saques e depredações em Londres. Tivemos a curiosidade de reler um texto do festejado sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, sobre o assunto. Lembramos também das aulas da professora Danielle Perin Rocha Pitta, antropóloga, quando ela falava sobre a questão da  felicidade em nossa sociedade ocidental. Numa sociedade centrada na supervalorização do "ter", possivelmente, as pessoas mais felizes, em tese, são aquelas que têm acesso aos bens materiais, o que motiva uma busca incessante pelo consumismo, estimulado pelos meios de comunicação através da propaganda. Na outra vertente do problema, uma grande frustração e rancor entre aqueles (cidadãos?) excluídos dos bens de consumo modernos, cuja tecnologia muda significativamente a cada seis meses. Muitos aparelhos de televisão de tela plana, LCD, dessas fininhas, foram saqueados. Quem suportaria assistir aos jogos da Copa numa velha televisão de tubo de imagem depois do bombardeio publicitário em torno desses novos aparelhos de TV?
                                      Bauman classificou o movimento de Londres, na Inglaterra, como um "motim dos consumidores excluídos". Se acompanharmos sua linha de raciocínio, suas observações estabelecem um vínculo quase orgânico entre Londres e Abreu e Lima, nossa querida Maricota. Se não, vejamos. Impõe-se como necessário uma mudança cultural, acompanhada de reformas sociais. Ao estabelecermos o vínculo entre riqueza e felicidade, esgarça-se o espírito comunitário, sobressaindo-se a inveja, o rancor, a arrogância e outros adjetivos do gênero. Faz muito tempo que se deixou de comprar carro apenas para se locomover. Na realidade, trata-se de um símbolo de status e, portanto, de diferenciação e ostentação. As inovações tecnológicas nos modelos são simples, mas a posição do farol – indicando, por vezes, o ano do carro – faz uma diferença descomunal entre os cidadãos-consumidores. Já conheci consumidores de classe média entrarem em depressão por não reunirem condições de trocar de carro.
                                      Em Abreu e Lima existe uma abismo de desigualdades  sociais. O que ocorreu na cidade - mesmo considerando-se a participação de gente de bem e de crianças - foi uma explosão de frustrações acumuladas. Uma distopia proporcionada pela sociedade de consumo, aliada à ausência do poder público em mudar a agenda de suas prioridades - corrompidas e mal conduzidas - para atender às demandas legítimas da população. Não duvido nada que a população da cidade, refeita daquele impulso de ação coletiva, vá atender aos apelos de Dona Irene e se dirigir às Lojas da Eletro-Shopping para apanharem os seus carnês e efetuarem os pagamentos das prestações.
                                      Assim que se elegeu governador do Estado de Pernambuco, o hoje candidato à Presidência da República, Eduardo Campos, buscou apoio na academia. O Pacto pela Vida, apresentado como uma das principais vitrines do seu Governo, é um exemplo disso. Aos poucos, por diversas razões, essa lua-de-mel foi se exaurindo, até a consolidação de um hiato profundo. Hoje, encontra-se na UFPE um dos principais focos de oposição ao ex-governador, inclusive no centro onde ele estudou quando mais jovem. Não raro, a arrogância cega os governantes. A soberba se encarrega de completar o serviço. Um pouco de humildade faria muito bem aos nossos gestores. Os problemas do Pacto pela Vida, por exemplo, quase todos os dias, estão sendo postos pelos acadêmicos.
                                      Agora ficamos sabendo que o Governo do Estado estaria contratando uma empresa para realizar um amplo levantamento sobre as causas dos saques e vandalismos que ocorreram na cidade de Abreu e Lima, há duas semanas atrás. O objetivo seria o de evitar ou prevenir possíveis ocorrências similares. Ficamos bastante preocupados com os vieses dessas intervenções. Outro dia, o Estado fez questão de alardear que iria "punir com rigor" os envolvidos naqueles episódios. É impressionante como tudo se encaixa naquela diretriz de proteção do capital, ou seja, em nenhum momento observa-se uma preocupação do Estado em atender às legitimas demandas daquela população no que concerne às políticas públicas de saúde, educação, mobilidade, habitação, trabalho, renda etc. Convém informar que as UPPs instaladas no Rio de Janeiro pecaram exatamente nesse aspecto. Cercaram, ocuparam o território, impuseram a presença militar do Estado, mas esqueceram das questões sociais essenciais.
                                      Desde junho de 2013 que a população pede mudanças nessa agenda pública, conforme afirmamos. Os governantes continuam fazendo ouvidos de moucos. Qualquer dia desses a porca torce o rabo novamente. É essa "seletividade" de ações de programas como o Pacto pela Vida - orientado para a defesa dos cidadãos-consumidores e incluídos socialmente, além do comércio - que estão levando à ruína esse Governo. O conceito de segurança pública deve contemplar as questões postas acima e não se limitar, unicamente, "punir" os transgressores, por vezes, com a morte. Há quem não curta muito a idéia de levar o sociólogo polonês Zygmunt Bauman para visitar Abreu e Lima, mas ele tem razão ao observar que esse apelo demasiado ao consumismo esgarça os laços comunitários, além de proporcionar enormes frustrações entre aqueles cidadãos induzidos/privados desse consumo.
                                      Posso assegurar que ele ficaria muito bem por aqui, saboreando as mangas Maranhão, comendo as castanhas de caju torradas com palhas de bananeiras do nosso sítio. Se chegar na invernada, ainda poderá experimentar as deliciosas bundas de tanajuras, fritas na manteiga de garrafa, com farinha. Numa sociedade onde o que vale como critério de cidadania é o "ter" acesso ao consumo, aquelas hordas que não conseguem atingir esse objetivo - que também é um direito deles - certamente, terão que ser "contida" através de um Estado policialesco e repressor. Como essas contradições estão no DNA do capitalismo, faz sentido a observação do filósofo Slavoj Zizek, quando ele se refere à tendência de fortalecimento autoritário do exercício do poder político. Ações repressoras, voltadas para conter a fúria dos não-consumidores. Um Estado de Exceção Episódico, como afirma Liana Cirne, professora da Universidade Federal de Pernambuco.
                                      Tanto aqui em Pernambuco como em outros Estados da Federação, as políticas de segurança pública estão sendo orientadas por alguns vieses profundamente equivocados, quase sempre pautadas pelo "endurecimento" das ações contras os mais vulneráveis, notadamente os contingentes populacionais mais empobrecidos, moradores das periferias, de cor negra, “futuros” traficantes, bandidos e marginais. O que está em jogo é o novo conceito de  "cidadão", ou seja, o cara que tem acesso aos bens de consumo capitalista, que desfila com seus carrões, moram em bairros nobres, almoçam em restaurantes chiques e compram suas guloseimas nas delicatessen  nos finais de tarde, numa ótica mercadológica, esse merece o tal status. 
                                      Quem não cumpre esses requisitos não merece o status de "cidadão". É more or less isso o que vem ocorrendo. Talvez seja o momento de rediscutir "valores" e "agenda pública". Os maiores "saqueadores" estão inseridos no aparelho de Estado, alguns sob o manto da impunidade, com uma ampla rede de proteção. Basta observar os dados mais recentes, informados pelo TCE, envolvendo prefeitos e servidores públicos "pegos" em maracutaias com o dinheiro de nossos impostos. Os rebelados - ou excluídos do consumo - acabaram devolvendo, em sua maioria, as mercadorias saqueadas nas lojas durante a greve da Polícia Militar. Qual o montante que esses políticos devolverão ao erário? Não vale o argumento de que uma situação poderia justificar a outra. Em certos aspectos, ambas estão equivocadas.
                                      Mas, o exemplo dos que nos governam, possivelmente, surtiria um efeito pedagógico enorme. Exemplo e sensibilidade para entender a origem do ovo da serpente, senhor governador. Vamos deixar de maquiagens. Política de segurança pública orientada quase que exclusivamente para defender o patrimônio e os cidadãos-consumidores? Isso não pode dar certo. Vejamos o que diz sobre isso a socióloga Maria Helena Moreira Alves, professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro:
“A população que está sofrendo esse processo é aquela que não é útil para o sistema econômico. Então, se eliminá­-la, não faz falta. O que eles estão eli­minando são os jovens pobres, negros, analfabetos que não servem para a mão de obra, aquela mão de obra fácil, que já tem muito. Em termos de direitos hu­manos, o Brasil é um dos piores países. É sempre importante lembrar que esta­mos em um país que não está em guerra declarada, embora o ex-governador do Rio de Janeiro tenha declarado guer­ra, mas isso foi da cabeça dele. O Bra­sil está em situação de rebelião popular, mas não é uma guerra civil, ainda. Es­pero que não venha a ser. Se continu­ar essa pressão, até pode vir a ser, co­mo é o caso da Colômbia. Muitos ca­sos, como o da Nicarágua, com o levan­te de Manágua, que eu vivi quando mo­rei lá, foram causados também pelo ter­ror, que controla até certo ponto. De­pois, quando você não tem mais espe­rança, acaba o medo. O levante de Ma­nágua foi quando aconteceu a operação Herodes, no final do governo contra os sandinistas, na qual eles mandaram ro­dear certas áreas mais combativas de Manágua, retiraram à noite das casas os maiores de dez anos e metralharam na rua, com argumento de que eles já estavam entrando na Frente Sandinista de Libertação Nacional. É muito pareci­do com a forma como a polícia brasilei­ra fala que o jovem vai virar traficante: “Nasceu, vira criminoso”. E eles mata­ram tantas crianças, que houve uma re­belião total, as pessoas se juntaram aos sandinistas e fortaleceram o movimen­to, que ganhou a revolução. E as pesso­as falaram que acabou o medo quando não tinham mais nada a perder. Hoje, o que temos? O Bope entra nas casas, arromba as portas, bate nas pessoas... Ouvi relatos de mulheres que falavam “Graças a Deus meu marido não esta­va em casa, porque quando tem homem eles matam”.

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