sexta-feira, 16 de maio de 2014

Zygmunt Bauman: de Londres para Abreu e Lima.




Ainda muitas inquietações pelas redes sociais sobre os episódios de saques e arrombamentos de lojas que ocorreram na cidade de Abreu e Lima, durante a greve da Polícia Militar. Escrevemos muito sobre o assunto, pois temos algumas ligações afetivas com o município. Até recentemente, a cidade era apenas um distrito de Paulista e conhecida como maricota, penso que em razão das muitas casas de sem-vergonhices existentes no local. Que Deus nos perdoe, Liêdo Maranhão. Feliz ou infelizmente, a cidade já se livrou do pecado da carne. Hoje é um dos maiores redutos evangélicos do Brasil. Para ser mais preciso, a maior densidade de população evangélica da América Latina. Pode ter se livrado da ira divina, mas permanece submetida ao julgo dos homens públicos negligentes e corruptos. Naquele dia fatídico, logo cedinho, a população da cidade foi acordada com uma lavagem de roupas sujas entre suas lideranças políticas. Uma birra entre o ex-prefeito e o atual, onde não faltaram acusações de malversação de recursos públicos.No dia anterior, mais um atropelamento com morte num de seus distritos, a Matinha, fato que ocorre com certa frequência. Trata-se de um trecho bastante perigoso. O Município é cortado ao meio por uma rodovia federal. Há engarrafamentos quilométricos no local. Certamente algumas medidas precisam ser tomadas pela esfera pública para preservar a integridade das pessoas que por ali transitam. Antes que condenem a população - como fez hoje uma rede de televisão, tratando-os como bandidos, de forma generalizada - quero afirmar que a sua população é constituída de gente ordeira e trabalhadora. Um dos aspectos mais importantes dos saques ali ocorridos é que podemos tirar algumas lições fundamentais para comerçarmos a entender sua complexidade, quiça, antecipando-se a outros episódios em gestação. Em termos de arrombamentos e saques, já foi possível observar, por exemplo, uma possível generalização para os municípios vizinhos e há relatos até mesmo em cidades do interior do Estado. A mudança de "agenda pública" já foi reivindicada pela população desde as manifestações de Junho de 2013. O poder público, em todos os níveis, solenemente, ignorou-as. Alguém já teve a curiosidade de checar a quantas andam os indicadores sociais de educação, saúde, habitação de nossa antiga maricota? Os governantes estão brincando com fogo. Há, na cidade, alguns indicadores que podem contribuir para essas situações de convulsão social. Há um número expressivo de pessoas morando em condições sub-humanas; é grande o comércio de entorpecentes na cidade; Assim como Goiana, ali também é registrada uma presença grande da exploração de sexual de crianças e adolescentes; apesar do forte comércio varejista e da presença de empresas de porte, é alto o índice de desempregados, portanto, sem acesso ao consumo. Em 2011 ocorreram saques e depredações em Londres. Tivemos a curiosidade de reler um texto do festejado filósofo Zygmunt Bauman sobre o assunto. Lembrei também das aulas da professora Danielle Perin Rocha Pitta, antropóloga, quando ela favava sobre a questão da  felicidade em nossa sociedade ocidental. Numa sociedade centrada na supervalorização do "ter", possivelmente as pessoas mais felizes, em tese, são aquelas que têm acesso aos bens materiais. Bauman classificou o movimento de Londres, na Inglaterra, como um "motim dos consumidores excluídos". Se acompanharmos sua linha de raciocínio, suas observações estabelecem um vínculo quase orgânico entre Londres e Abreu e Lima, nossa querida maricota. Se não, vejamos. Impõe-se como necessário uma mudança cultural, acompanhada de reformas sociais. Ao estabelecermos o vínculo entre riqueza e felicidade, esgarça-se o espírito comunitário, sobresaindo-se a inveja, a arrogância e outros adjetivos do gênero. Faz muito tempo que se deixou de comprar carro apenas para se locomover. Na realidade, trata-se de um símbolo de status e, portanto, de diferenciação. Em Abreu e Lima existe uma abismo de desigualdades sociais. O que ocorreu na cidade - mesmo considerando-se a participação de gente de bem e de crianças - foi uma explosão de frustrações acumuladas. Uma anomia proporcionada pela sociedade de consumo, aliada à ausência do poder público em mudar a agenda de suas prioridades - corrompidas e direcionadas para grupelhos - para atender às demandas legítimas da população. O brasileiro comum é um povo honesto. Não duvido nada que a população da cidade vá atender aos apelos de Dona Irene e se dirigir às Lojas da Eletroshopping para apanharem os seus carnês e efetuarem os pagamentos das prestações.

Nota do Editor: Conforme antevemos na postagem, logo nas primeiras horas da manhã de hoje, dia 16, a população da cidade, sem qualquer coação, começou a devolver os produtos saqueados durante o dia anterior.

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