Estávamos lendo o texto de George Orwell, onde o escritor britânico fala sobre as suas agruras passadas em Paris. O texto é ótimo, tem algumas coisas interessantes, inclusive sobre o estilo de escrita de Orwell neste texto, bem diferente dos livros que o consagraram como um grande escritor, ou seja, o distópico 1984 ou A Revolução dos Bichos. Havíamos lido originalmente o texto ainda na adolescência, sem aquelas preocupações sobre o estilo do escritor. Relendo-o agora, pode se concluir por outros aspectos importantes, como a arquitetura do enredo, muito bem construída pelo escritor. O livro é de leitura agradável, quase como um diário, dividido em capítulos, todos pensados de forma a se constituírem quase com o mesmo número de paginas. Curiosa essa preocupação do autor. Num determinado trecho, ele que trabalhou em restaurantes, observa que os melhores pratos servidos em Paris, inevitavelmente, vêm temperados com suor e cuspe.
O mais importante, no entanto, foi o marcador de páginas, que fazia alusão ao grande educador baiano, Anísio Teixeira. Os jornais O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo publicaram matérias sobre uma recusa do INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - Anísio Teixeira - em divulgar os dados levantados pelo SAEB em relação aos índices de alfabetização do segundo ano do ensino fundamental. Ao invés disso, as autoridades do INEP\MEC argumentaram que os dados do Criança Alfabetizada, outro levantamento criado pelo próprio órgão, seriam mais consistentes e relevantes, melhor apurados, mais confiáveis, coisas assim. Argumentos infundados, uma vez que esses dados do SAEB precisariam serem divulgados, até por questões legais, uma vez que recursos públicos foram aplicados em sua realização. Segundo a matéria do Estadão, os próprios técnicos do INEP teriam alertado os dirigentes do órgão sobre essa questão.
Os órgãos de comunicação não se conformaram com as respostas e continuaram insistindo na divulgação dos dados do segundo ano do SAEB. Esses dados foram finalmente divulgados e se constatou o seguinte: A discrepância de índices entre o Criança Alfabetizada, 56%, enquanto o SAEB aponta o escore de 49%. A diferença, segundo o professor Guilherme Lichaud, professor brasileiro da Universidade de Stanford, consultado pelo jornal, é bastante significativa. Estes indicadores sugerem as dificuldades de se atingir as metas de alfabetização na idade certa, que, conforme enfatizamos numa outra postagem, constitui-se na pedra angular da educação. Quebra-se na emenda e talvez não se conserte mais. Agora fica evidente porque o INEP havia optado por não divulgar esses dados do SAEB, uma vez que os dados do Criança Alfabetizada são mais favoráveis. O educador baiano, um batalhador por uma educação pública de qualidade no país, com a notícia, se revirou na tumba.