sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Crônicas do cotidiano: Severino bucho-azul.







Nosso curso de Letras, na UFPE, ainda foi muito "puxado", como diriam os nossos avós. Foi o nosso primeiro vestibular. Por essa época, ainda existia a primeira e segunda opções. Dentro de uma perspectiva bourdieusiana, a primeira opção, provavelmente, para os mais privilegiados, os filhos da classe média ou da elite, e as segundas opções para os alunos oriundos da escola pública, o grupo em que nos encontrávamos. Tudo devidamente legitimado em nome da meritocracia de corte burguesa. Morando na cidade de Paulista, Região Metropolitana do Recife, precisávamos chegar ao Centro de Artes e Comunicação da UFPE às 7:30 da manhã, para assistirmos as famosas  aulas de Latim, ministradas pela professora Inalda. Acordávamos às 05:00 horas e chegávamos àquela Instituição já literalmente "coalhado". 

Muita dureza. As tardes e noites eram dedicadas às salas de aula. Não era brincadeira não. Hoje, Latim já não se encontra mais no desenho curricular do curso, e você ainda tem a opção de dedicar-se apenas ao ensino de uma língua, que pode ser o português. Na nossa época, eram duas. Tínhamos dois  grandes amigos no curso. Pedro, que tornou-se diplomata, e o almirante Guimarães, um ex-oficial da Marinha, que já se encontrava com a mente em frangalhos, castigado que fora pelas agruras da vida. Não raro, vinha acompanhado da esposa, de quem nos tornamos amigo também.

Pedro, ainda tive a oportunidade de encontrá-lo num supermercado, outro dia, fazendo compras com a esposa, num desses shopping centers da vida - que frequento apenas por força das circunstâncias - já então com aquela empáfia de rico, o que nos facultou apenas um abraço e um aperto de mão, mas já sem aquele afeto das conversas alegres, nos alambrados do CAC, horas a fio, antes ou depois das aulas. Bastante viajado, na condição de diplomata, penso que o caboclo esqueceu de suas origens, em Timbaúba de Mocós. Guimarães sumiu completamente. Tentei de todas as formas reatar aquele contato, mas todas as tentativas se mostraram inúteis. Com ele, além do grande amigo, foi embora também um romance que cometemos durante o curso, por exigência de uma das disciplinas. Nada muito rebuscado, apenas para cumprir um rito acadêmico. Um exercício de escrita, na realidade.

Nunca mais tive notícia do mesmo e havia apenas a cópia que ficou nas mãos do Guimarães, que já não era assim um cara muito organizado. Os anos se passaram e Mariana, uma aluna com a qual mantivemos um relacionamento durante o curso, jura que o mesmo teria sido publicado, segundo soube, com um nome diferente do original, mais ou menos o que ocorreu com Cazuza, de Viriato Correia.Na realidade, nunca se soube o verdadeiro nome do cidadão que entregou os originais de Cazuza a Viriato. Difícil acreditar nessa conversa. Impossível que o Guimarães que conheci tomasse uma atitude do gênero, sem que nos fosse dado os créditos devidos. 

Não aquele Guimarães que conheci, das tripas de porco com cerveja do famoso Bar da Tripa - salgadas que só a molesta - das sextas no Bar do Abacaxi, das farras na residência de Remígio, quando a família viajava e, principalmente, aquele Guimarães que, mesmo com um inglês macarrônico, aprendido na beira do cais - nos tirou, incontáveis vezes, dos embaraços na disciplina. Inspirado, nos bares com música ao vivo, tomava o microfone e saía a imitar o Frank Sinatra. Sua interpretação de Let me try again era inconfundível.  Dávamos muitas gargalhadas. Bons tempos aqueles...

Os escritos, tratava-se, na realidade, de um esboço de literatura infantil, sem maiores pretensões, apenas para o cumprimento dos requisitos de uma disciplina. Salvo algum engano, a disciplina de Teoria Literária, ministrada pelo poeta Marcus Accioly. Outro dia o encontrei passeando aqui pelo calçadão da praia de Casa Caiada, em Olinda, já sem esconder os efeitos dos longos anos de vida. Não se pode dizer que fazia uma caminhada. Estava mais para um passeio descontraído. Como um almirante teria muitas histórias para contar, achei por bem juntarmos suas experiências, com as nossas vivências de menino, na cidade de Paulista. Havia alguns personagens engraçados em nossa Vila Torres Galvão. um dos capítulos dizia respeito a um cidadão conhecido pela alcunha de Severino Bucho-Azul, que dava título ao romance, possivelmente um nome apropriado para um romance de literatura infantil. 

Foram 165 páginas de memórias e reminiscências.Isso depois de procedermos inúmeros cortes, literalmente "censurando" as safadezas do Guimarães. Para nós, mesmo sabendo tratar-se de um trabalho experimental, uma perda irreparável. Eis que remexendo as coisas velhas que sempre guardei, encontrei alguns rascunhos de anotações sobre esse tal romance, precisamente sobre os tipos engraçados de nossa cidade, que passamos a compartilhar com vocês, nessa crônica de fim de fim de semana.

Na vila onde morávamos existiam algumas pessoas de nome ou apelidos curiosos. Havia inúmeras justificativas para isso: Atitudes, traços físicos, atividades profissionais ou algum ofício cotidiano. Os folcloristas Câmara Cascudo e Mauro Souto Maior trabalharam essa questão. Mauro chegou a escrever um livro sobre o assunto. Tinha o hábito de contactar diretamente os cartórios de registro civil com essa finalidade. “Nomes Próprios Pouco Comuns” sempre despertou muito interesse dos leitores. Um verdadeiro best-seller do folclorista da Fundação Joaquim Nabuco. No nosso caso, não se trata bem de nomes propriamente ditos, mas de apelidos, ou, se preferirem, o nome seguido dos apelidos, o que era muito comum. 

Ai vão eles: Severino Bucho-Azul, teria realizado uma cirurgia no abdômen e havia ficado com uma marca que, segundo dizem, era azulada, algo pouco provável, mas permitido no campo do folclore.  Mané Vê-Dois. Era um cidadão vítima do alcoolismo que já se encontrava na fase onde o caboclo passa a ver, num delírio, a imagem de um bode – sempre um bode, nunca entendi muito bem porque não outro animal – algo comum entre os alcoólotras. Bio Doceiro, um vendedor de doce japonês que, invariavelmente, chamava nossa atenção não apenas pelo inconfundível apito, mas pelas iguarias que transportava, um doce apreciado ainda nos dias de hoje. Uma atividade informal que sobreviveu ao tempo. Não sei como aquele doce saia tão gostoso, fabricado num ambiente de tanta imundície. Bio Doceiro morava praticamente numa pocilga, mantida por sua esposa, Tonha da Porca. Tonha cevava os leitões recolhendo restos de comidas pelas casas vizinhas em horários regulares. Quando eles já estavam bem gordinhos, os matava, comercializando a carne, normalmente em algumas datas específicas do ano.

Eu quero um quilo de lombo, eu quero um quilo de costela. Não esqueça dos pés para a feijoada. E assim ia, até que o leitão, antes mesmo de morrer, já havia sido todo esquartejado. Mesmo nessas condições, nunca soube de alguém ter sido acometido pelo famoso germe  transmitido pela carne do animal, criado sem nenhuma condição básica de higiene. Dona Chocha, uma baixinha simpaticíssima, que aturava nossas peraltices em seu quintal, sempre que possível. Nossos excessos eram solenemente castigados. Havia uma cerca com a plantação de avelós, uma planta que, segundo dizem, estudada hoje como alternativa ao tratamento do câncer.  

O avelós possui um leite que, quando bate nos olhos, provoca dores e ardências intensos. Costumávamos muito cortar seus galhos apenas para ver o leite derramar. Os acidentes eram freqüentes.  Manuel Farinha Seca, um miliciano que trabalhava para os Lundgrens. Tinha como missão fiscalizar as matas da Companhia de Tecidos Paulista. Possuía uma prole respeitável e uma voz inconfundível. Não raro ficávamos sabendo de suas escapadas às inúmeras emboscadas de que era vítima, na volta para casa, em razão das inimizades adquiridas pelo ofício. 

Existiam outros tantos tipos engraçados, como um barbeiro alcóolotra, que costumava dar banhos de talco Cinta Azul  nos clientes. Alguém lembra desse talco? Português era o apelido dele.Gente boa aquele Português. Não raro íamos em reca cortar o cabelo. Depois do corte "pé quadrado", o melhor momento era quando o Português nos dava um banho com aquele talco. Nas sextas-feiras, só voltava para casa a reboque dos filhos, totalmente embriagado, sem a menor coordenação. Observar aquelas cenas era de partir o coração de uma criança. Comenta-se, que internado e atormentado pela compulsão de tomar uma pinga de cachaça, teria ingerido o próprio álcool que seria usado no seu tratamento, num descuido da enfermeira. Prometo que voltaremos a tratar desses assuntos. 

2 comentários:

  1. Parabéns amigo, muito bom! Me deliciei na sua história, e ao mesmo tempo, revivendo a minha. Um abraço.

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  2. Muito grato pela leitura e pelos comentários, José Lopes. Um fortíssimo abraço.

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