quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Michel Zaidan Filho: Ventos de agosto

 
 
 
Há um romance épico sobre a saga  do povo gaúcho chamado  O tempo e o vento. Neste romance o personagem "Bibiana" faz uma imprecação contra os ventos do mes de agosto, dizendo que eles trazem sempre um mau presságio, uma desgraça, uma catástrofe, coisa assim. E existe mesmo uma frase do autor, Érico Veríssimo, indagando se no paraíso tem ventos. Independentemente do que pensam os gaúchos sobre os augúrios do mes de agosto e seus ventos, este mes costuma ser lembrado como um período de desgraças, basta recordar o suicídio de Getúlio ou a morte de Arraes.  Pois foi exatamente no dia 13 de agosto de 2014 que "desapareceu" em São Paulo o ex-governador de Pernambuco, com a explosão de um "avião fantasma" de titularidade até agora não esclarecida.O político pernambucano estava em plena campanha presidencial e era um trunfo importante nas eleições estaduais. 
 
A sua morte, em agosto do ano passado, em circunstâncias trágicas e nunca elucidadas, alimentou uma espécie de messianismo atávico que, em situações como estas, tende a produzir uma taumaturgia política que beneficia sempre os aliados, os protegidos, a família do falecido.É preciso dizer que o nosso povo é pródigo em alimentar mitos e mitologia, às vezes de pés de barro e fortemente reforçado pela grande mídia. Há também, entre nós, uma jurisprudência penal curiosa:a morte (mais ainda em circunstâncias trágicas e desconhecidas) redime todos os malfeitos, os ilícitos penais, os crimes contra a República. Existe no Brasil, como na história do Cristianismo, os bons ladrões e os maus ladrões. No geral, os bons ladrões estão mortos, embora possam ser beneficiados (ou os seus) pelos ilícitos cometidos. Os maus ladrões são os "bodes expiatórios", as "genis", os "judas" da vida, expostos todos os dias pela televisão, as revistas e os jornais, a sanha execradora e vindicativa da população mais pobre e pouco escolarizada. Os que morrem têm sempre o benefício da dúvida, a presunção de inocência ou a compaixão dos vivos. Os que ficam cumprem o papel de ajudar exorcizar a raiva, o descontentamento, a frustração dos vivos.
 
Esse preâmbulo foi escrito em razão de uma sentença absolutória proferida pelo sr. Sérgio Moro, sem nenhum alarido da mídia, sobre os implicados aqui de Pernambuco nos escândalos das operações da "Lava-a-Jato". O Excelentíssimo juiz-vingador público alegou que com a morte de dois ilustres políticos do grupo de suspeitos,  apontados, nas delações premiadas do senhor Paulo Roberto Costa, por ocasião da construção da refinaria Abreu e Lima, o processo se extinguiria, pois não havia como processar, denunciar e sentenciar que já morreu. Pronto, resolvido o assunto. Era só esperar o Juízo Final, para ver quem ia direto para o inferno ou quem alcançaria, pelo menos, o purgatório, já que para o céu dificilmente ninguém iria. Havia entre esses, políticos ligados ao PSDB, ao PSB e o PMDB. Mas os jornais solicitamente silenciaram sobre o caso, como continuam calados.
 
Muito bem. Quem morreu, morreu. Mas há muita gente viva, vivíssima, querendo usar o capital político, o patrimônio moral e material dos falecidos para se eleger a isso, àquilo, a esse cargo, àquele cargo etc. Houve até uma procissão, com a estampa reproduzida em estandarte com a figura impoluta do falecido, em ato nitidamente eleitoral. Os apaniguados, cupinchas, afilhados, protegidos ou mesmo os aventureiros que farejam o que podem ganhar se aproximando desse cortejo, estão utilizando e vão utilizar a memória do morto como trunfo político, como se os eleitores fossem destituídos de qualquer forma de discernimento político ou moral. Crentes ou fiéis desse neo-messianismo familiar, que acham que os mortos não têm defeito algum e que é de péssimo costume falar  acrimoniosamente de quem já se foi.
 
Aqui é onde entra a necessidade de um julgamento póstumo, como em outros romances realistas fantásticos de Érico Veríssimo. Os mortos ressuscitam para ouvirem uma condenação pelo que fizeram ou deixaram. Sobretudo pela eleição de gestores incompetentes, midiáticos, que transformaram o Estado e a cidade numa imensa cratera moral, alimentada por taxas, contribuições e impostos, que não produzem nenhum retorno social. É necessário fazer esse julgamento - com todo respeito pela tragédia do falecido - porque a memória de um político é um ativo disputado a tapas pelos acólitos,  pelos epígonos, pelos puxa-saco e coisa que o valha. Interessa à sociedade passar a limpo o que produz e o que constitui essa memória, para que o embuste, a fraude política não se perpetue, através dos paus mandados, e continue a prejudicar ao povo de Pernambuco.
 
                                Pode ser que, assim, o falecido descanse em paz.
 
Michel Zaidan Filho é filósofo, historiador, cientista político, professor titular da UFPE e coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia - NEEPD-UFPE

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